Memórias de outros verões e serões

Hoje, calhou de passar aqui. Entre Aguda e Miramar, ou vice versa. Neste espaço vazio - ou antes, na vegetação havia um templo, chamava-se mesmo assim. "Temple Beach". Da Margarida, mãe da Bárbara, hoje, avó. 

Caminhava-se por este passadiço, (imagino) já com novas tábuas, a porta envidraçada, a casa-de-banho, umas mesas típicas de bar de praia, e uns bancos altos no balcão.

Lembro-me de um final de tarde, um domingo - se não me falha a memória - de ter sido desafiado para um "cozy moment" só com guitarra e voz sem engenharia de som. Era um fim de tarde com o mar revolto, algumas gotas de chuva criavam uma melodia constante que nem uma bateria de jazz e as vassouras. 

Meia dúzia de mesas ocupadas. Depois de um cover de Jorge Palma e D-Black, entoei "Noite e Madrugada", um dos meus originais. Os meus olhos fixaram-se numa mesa muito perto do palco, uma rapariga e o namorado transmitiam uma aura quase tão cinzenta como o tempo.

Ele disse qualquer coisa, ela pediu-lhe um minuto para ouvir o resto da canção. Nunca me tinha acontecido, ser o centro de atenções. Do refrão ao final foi uma viagem especial. Quando terminou a música, ele passou na caixa e pagou. Ela, deixou-se ficar uns segundos a olhar o mar.

Saíram com um minuto e meio de diferença. Antes de abrir a porta do bar, voltou-se para trás, sorriu-me, fez uma vénia. Agradeci, com um sorriso envergonhado.

Nunca mais a vi. 
Nem hoje, no bar da praia onde estou a escrever. 


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