O que vir por acaso - 19 de Março (manhã)
As árvores dão de si. Emitem sons, que só os do comboio ali em frente abafam. Abro a porta que dá para a varanda da cozinha. Fiquei uns segundos, não sei precisar quantos, a olhar o melro-trapezista. O bico cor de laranja contrasta com o pêlo negro. Vai de um lado ao outro sem tropeçar. Caso acontecesse, batia as asas e aterrava como um helicóptero que leva ao Douro os turistas. Não sei se alguma vez os drones vão transmitir o que os pássaros descobrem neste maravilhoso lugar que é o mundo. Olho o céu, as nuvens correm para norte. Na televisão anunciaram uma nova depressão: Martinho, de seu nome. O melro não estará de certo a par das novidades meteorológicas, e para ele é simples: caso o vento seja forte, descansa as asas e resguarda-se na relva. Com sorte, na janela em frente voem pedaços de pão que sobraram do pequeno-almoço. Ainda o oiço cantar.