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Showing posts from March, 2025

O que vir por acaso - 19 de Março (manhã)

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As árvores dão de si. Emitem sons, que só os do comboio ali em frente abafam. Abro a porta que dá para a varanda da cozinha. Fiquei uns segundos, não sei precisar quantos, a olhar o melro-trapezista. O bico cor de laranja contrasta com o pêlo negro. Vai de um lado ao outro sem tropeçar. Caso acontecesse, batia as asas e aterrava como um helicóptero que leva ao Douro os turistas. Não sei se alguma vez os drones vão transmitir o que os pássaros descobrem neste maravilhoso lugar que é o mundo. Olho o céu, as nuvens correm para norte. Na televisão anunciaram uma nova depressão: Martinho, de seu nome. O melro não estará de certo a par das novidades meteorológicas, e para ele é simples: caso o vento seja forte, descansa as asas e resguarda-se na relva. Com sorte, na janela em frente voem pedaços de pão que sobraram do pequeno-almoço. Ainda o oiço cantar. 

Quando a desculpa já não serve...

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28 de Fevereiro,  Hoje esqueci-me do bloco. No regresso ao lugar de sempre ao final da jornada - e tantas vezes de manhã para aproveitar os raios de sol e o canto dos pássaros no parque - oiço um diálogo de pai com os filhos pela mão:  - Hoje foi massa com carne. E para sobremesa um doce de maçã.  O pai, com a mais nova pelo braço exclama:  - Eu só gostava de saber é porque é que a camisola que devias trazer vestida vem pendurada no meu braço. O mais velho corre pela relva e salta para o topo da rocha cinzenta que tem vista privilegiada para as árvores do parque e as janelas da Biblioteca. Uma jovem moça bem vestida encosta-se ao balcão. A porta abre-se, uma bandeja cheia de loiça suja. Num olá seco pedem para activar a máquina de tabaco que se encostou à parede perto da esplanada.  Aqui está-se sossegado. Um homem mastiga pastilha elástica dando assim mais um passo rumo à velhice saudável sem tabaco. Bebe, em goles pequenos sem açúcar o seu quarto café. A televisão, com uma legenda so...

Sinais do mar

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    1 de Março  O mar devolve tudo o que não lhe pertence. Vim dar um passeio com o meu cão. Há restos de paus, penas de gaivotas que voam agora noutras paragens, e a pulseira preta que atirámos a meias ao Atlântico no final do verão. Calhou, de a ver num montinho de areia, meia enterrada, meia à vista.  Lembro-me de com a palma da minha mão encontrar os teus finos dedos - ainda que representassem para mim - a segurança há muito desejada. Estranho. Nem te vi passar de auscultadores nos ouvidos, calças justas e olhos azuis - embora tristes - com a nortada e o fim do livro.   Está frio. O cão vai fitando o cansaço com a longa cauda a abanar ao vento. Olhámos, por largos minutos a nossa cidade a dar os bons dias.