O lugar que fiz de estádio já tem iluminação
Do miúdo que por aqui correu, saltou, pedalou já pouco resta. O cabelo já não está tão loiro, a bicicleta já deve ter sido transformada nalgum item de casa por interposta reciclagem. Hoje, ao fim de tantos anos voltei a calcorrear este largo que fiz de estádio durante a meninice. Cresci junto à escola Gomes de Almeida, quando havia folgas - adorávamos aquelas disciplinas de duas horas - era sinónimo de corrida, atravessar o descampado - que hoje é a Av. 32, e abrir a garagem do número 1077. A Lurdes, que já naquele tempo nos aturava, descia para fazer a contagem, à mesa de ping-pong havia sempre torneios de pares, no pátio a rede de voleibol com um fio agarrado a uma tabela de basket servia para treinar uns "picos" e garantir a convocatória para o jogo seguinte. No salão havia sempre alguém - ou alguns dois - a tirar a vez (que nem departamento de finanças) para a Mega Drive, a Sega Saturn, a Playstation, etc.
Hoje, ao fim de tantos anos, voltei a percorrer a calçada, ainda ali vive gente no primeiro andar (por onde uma bola entrou numa brecha). Agora que me lembro, rio às bandeiras despregadas. Não por ter conseguido tal feito, mas por ter acreditado que tinha futuro com as chuteiras nos pés. O mais próximo que estive para assinar por um clube foi no Football Manager, esse grande clássico de videojogos. Assinava sempre pelo Porto, e claro, pelo clube da minha cidade. Cheguei a fazer uma contratação por uma avultada quantia um avançado em final de carreira só para tirar o meu clube de uma situação financeira difícil. Outros tempos... lá diria o saudoso amigo Lúcio.
A porta que serve de acesso às garagens do prédio sofreu obras de recuperação, o divertimento até à chamada de atenção de algum vizinho era ver quem conseguia acertar com mais precisão na maçaneta ou na "barra", vulgo - parte superior do portão. Nunca chamaram a polícia, mas quando encontravam alguns pais ou familiares diziam "esta semana quase que me partiam o vidro...". Ainda estou para saber quem foi a amiga - denúncia anónima - que num dia de verão eu andava a passear de bicicleta em contramão... Resultado: fiquei um verão a andar a pé... É engraçado voltar a pisar este chão, recordar os momentos em que me chamavam da janela para "ir para a mesa".
Foi também nesse tempo - da escola - em que andava doido por ter um cão. E tive... um são bernardo. Faço um ligeiro parêntesis para contar o que acontecera... Cheguei à escola em Janeiro, um frio tremendo, depois de umas refrescantes férias natalícias, perguntaram como tinha sido o senhor barrigudo.
- Muito fixe! Demasiado fixe! Ofereceram-me um cão. Um São Bernardo.
O pessoal delirou, era essa uma das receitas para as raparigas se aproximarem. Toda a gente queria conhecer, vai daí organizaram uma excursão no intervalo "maior", o das 10h15. Abri a porta, o pessoal que estava comigo já numa estreita proximidade com o chão a chamar pelo jeco.
- Está lá em cima no quarto.
Desci, com um peluche ao colo. Parece que estou a ver a cara de quem perdeu o intervalo grande para dar de caras com um boneco. Até eu fiquei incrédulo por ter recebido além dele um par de peúgas na árvore de São João. Hoje, gostava de voltar a ser miúdo, de voltar a ter aqueles natais. Restam memórias, mas tal como uma imagem: fotografar é eternizar.
Hoje, passei por aqui duas vezes. E recordei-me de tanto daqueles verões.
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