Confissões de um palhaço
Há dias em que o desenho do sorriso que sobreponho à minha verdadeira máscara faz-me acreditar que tudo na vida faz sentido sorrindo, mas não são raras as vezes em que o meu coração se sente tão apertado que nem a situação mais engraçada ou a figura mais caricata reflectida no espelho me faz sorrir, há momentos em que a minha maquilhagem nada mais é do que um escudo à tristeza visível no meu rosto, enquanto pessoa.
Ontem enquanto me preparava para mais uma subida ao redondo palco do circo, sentia as lágrimas escorrerem-me pelo rosto, a maquilhagem por melhor que estivesse desenhada esborratava nos meus olhos. O nariz vermelho que todos acham graça e as crianças adoram apertar doía-me a colocar sobre o meu verdadeiro. Não é difícil estar assim depois de perder alguém que se ama, não é difícil estar assim depois de se discutir com alguém que é importante para nós... mas eu como palhaço que sou, o Sorriso deve estar sempre presente... mas há tantos momentos que as brincadeiras não fazem sentido, as palhaçadas não servem para aquecer o meu enregelado coração mas pagam-me para fazer rir mesmo que não sinta vontade para o fazer. Por vezes o sentimento de tristeza precisa mesmo de ser camuflado, o Palhaço que todos vêm diariamente também chora, tem momentos em que quer fugir do mundo em que vive fechado para poder assumir o que sente verdadeiramente! O sentimento está lá, mas nunca posso mostrar.
Por vezes a vontade de estar fechado no meu mundo sobrepõe-se em muito ao de querer estar naquele lugar que muitos consideram mágico... para mim esse lugar não é mais do que um espaço onde enceno uma peça, onde visto a pele de alguém que não sou, que me rio com piadas que não acho graça, com movimentos de braços que não são meus, são os do Palhaço Sorriso. Por vezes sinto-me anestesiado, logo distante, e os aplausos de pé do público não chegam sequer para me aquecer nem para me trazer ao mundo "real"... por vezes sinto a vontade de vestir a pele do Palhaço Triste e contar a verdadeira história, os amores que me fizeram um dia verter lágrimas, as falsas amizades que um dia me fizeram duvidar que na vida existiria uma verdadeira... Há tantos momentos para reflexão mas eu raramente os aproveito, o trabalho fala mais alto, o dinheiro que recebo para fazer rir é o que me alimenta, os quilómetros de estrada faço questão de os fazer sempre com um sorriso nos lábios para não estragar o bom ambiente que se vive naquela que muitas vezes é a nossa única família.
Às vezes o palhaço que nasce e se transforma em frente ao espelho que pendurei na minha roulotte não é mais do que um mascarar da verdadeira cara triste do eu real... mas esse não consta do cartaz do circo nem do imaginário das pessoas que diariamente compram um bilhete e esperam ansiosamente que o Palhaço as faça sorrir e as faça esquecer dos problemas que estão para lá da gigante tenda vermelha... É curioso que todas as crianças queiram conhecer no final da noite o Homem que dá vida ao Palhaço Sorriso mas não é menos curioso que os pais não explicam que o que elas vêm no circo é magia, imaginação, é um lado menos verdadeiro... Esquecem-se que por trás daquele grande sorriso pode estar alguém triste, distante do mundo que teima em correr lá fora.... Na vida apenas gostei de fazer uma coisa: Sorrir! Mas por vezes apetece-me parar para expolir os meus anseios, expulsar as minhas tristezas para no final de cada dia, ao início de cada noite vestir a pele do Palhaço, mas com espírito para tal. Preciso deixar de ser o Palhaço e ser o Eu Real nem que seja por uns minutos para voltar a sentir...
Ontem, depois de mais uma aparição decidi abrir as portas do meu coração e escrever... dizer em alto e bom som para quem quisesse ouvir o que por dentro me faz chorar e sentir. Passeei junto ao rio, aquele que tantas vezes me recebeu para que pudesse pensar um pouco de uma forma menos atabalhoada e inocente. Ali, naquele pedaço de chão sentei-me e olhei a cidade que se ergue em anfiteatro e deixei cair a máscara que diariamente trago. Em dois, três ou cinco minutos deixei que o Mundo não fosse nada para mim e entreguei-me às memórias de beijos e afetos, de histórias vividas ao segundo num palco que tantas vezes partilhei com os que mais amo... Nesse curto espaço de tempo voltei a sentir o que há muito pensei já não existir... VERDADE! Talvez agora possa voltar a entrar em cena, desta vez com um Sorriso Verdadeiro não pintado no meu suave rosto para mostrar ao Mundo quem sou na verdade, que sinto como qualquer um, que amo mais do que ninguém porque tenho sentimentos reais e sinceros, que vivo para lá do sonho encantado neste circo à beira da estrada plantado.
As luzes baixaram, a cortina abriu... Para lá deste momento haverá um Palhaço Sorriso que ontem chorou e que hoje, no fim de tudo... SORRIU!
Comments
Post a Comment