Notas de rua
Saio sem saber
O que vou então fazer
Vou partir para outro lugar
A fim de me conseguir libertar
Salto barreiras que julgava
Desde logo, intransponíveis
Hoje sei, são desafios
Irresistíveis
Corro sem me cansar
Por campos e terras desabitadas
Escolho viver em cidades desertas
De pessoas mal-habituadas
Sonho com sonhos adormecidos
Amores não correspondidos
Paixões vividas
Noites clandestinas
Hoje vagueiam pelas ruas
Mulheres cheias de adornos
Vagueiam, recheadas de tanto
Mas ao fim e ao cabo, nuas
Despidas por fora
Reflectem apenas parte de uma alma
Que se vende por tudo
A troco de quase nada
Na calma da noite
Visto o que mais quente tenho
Vou vendendo ilusões
Maiores ao meu tamanho
Escrevo em paredes destruídas
Nomes de quem não conheço
Mas que lá no fundo
Lhes agradeço
Tenho fotografias esquecidas
Espalhadas por tantos lugares
Visito museus e casas
De alguns particulares
Sinto a vida a adormecer
E eu ainda agora acordei
Vou viver,
Porque agora sei
Na calma da noite
Apenas um som ao longe
Vem da ponte, do casario
Vem, não sei de onde
Vou vendendo prazeres
Para comprar o perdão
Mas antes de viveres
Ouve bem o coração
Corre pela cidade
Por esquinas e jardins encantados
Mas lembra-te sempre
Mais vale sonharmos acordados
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