Um encontro por acaso - 2


Encontraram-se à hora marcada, ela chegara mais cedo uns minutos, ou simples detalhe ou uma louca vontade de o voltar a ver. Sentou-se na mesa da janela, para o ver chegar. Lá fora, um belo jardim em tons ainda esverdeados imanava tranquilidade. Ele chegou uns minutos depois, à hora marcado, debaixo do braço um bloco de notas encostado à capa protectora do tablet que comprara umas semanas antes, com a desculpa de poder levar dezenas de livros e uma aplicação para desenvolver ideias musicais, coisa que até então não tinha.



Ele sabia escolher os melhores lugares para a levar, queria-a impressionar, mostrar-lhe o melhor do seu mundo, um mundo que ao fim e ao cabo era dele e de todos os que lá moravam. Não estava muito frio, sugeriu-lhe uma mesa no jardim de inverno, encantador para quem conhece aquele lugar. Ela, embevecida com tudo o que ele lhe proporcionara nos últimos dois dias fez questão de pagar o café, claro que o que queria era ter uma desculpa para o voltar a ver no dia seguinte, vestia uma roupa típica da estudante universitária em dia primaveril: uma sweat-shirt cinzenta, calças de ganga e um top branco, ele não olhou fixamente para o seu peito. Ele, como sempre, usava as gangas azuis, um pólo branco e uma camisola a descair para as costas.

 



Deram um beijo em cada face, que perfume fantástico trazia ela naquele dia, na noite anterior sonhou abraçá-la na multidão mas o seu nível de amizade com ela (se assim se pode chamar) era ainda baixo. Do bolso retirou um papel amarrotado e pediu que lesse, era um poema mal amanhado (segundo ele) sobre uma rapariga de anúncios. Ela corou ao receber daquelas mãos tal papel, obviamente não tinha traçado no seu imaginário um poema de amor para ela, ao fim e ao cabo, cruzaram-se por acidente numa mesa de café. Perguntou se podia ler em voz baixa ou em alta.



- Podes ler como quiseres, gostava de ouvir da tua voz essas simples palavras.

- Juras?

- Sim! Gostava muito.

 



Tossiu uma vez, bebeu um gole do café ainda quente, ele disfarçou olhando a paisagem, à esquerda a biblioteca onde se perdera vários dias, num tempo em que a paixão era ao fim e ao cabo uma história por contar: 

 

Passava à minha porta,



Uma garota encantada

Parecia a do anúncio

De uma marca conceituada

Não foram raras as vezes

Em que parei para contemplar

Gostava do seu corpo

E do seu modo de andar



 

De súbito interrompeu:



- Conheces? Ela é de cá?

- Mais ou menos, não tenho a certeza que seja de cá mas já a vi a passear na cidade.

- É tão gira como tentas mostrar no poema?

- Acho-a gira... Gostas de te ver ao espelho?



Soltou uma gargalhada:



- Não sou eu!

- Não foi isso que te perguntei.

- Gosto de me ver ao espelho, mas não sou perfeita.

- Gosto tanto do teu sorriso.

- Queres-me pôr um sorriso nos lábios ou ver a minha face rosada?

- Um dos dois, não é minha intenção causar-te embaraço.



 

Sorriu, agradecendo-lhe o gesto. Naquele momento começou a surgir no ar um nevoeiro cerrado, olhou a rua e disse:



- A cidade é mágica assim. E se fôssemos dar um passeio? Trouxeste a máquina?

- Nunca me esqueço dela.

- Perfeito! Vamos então.



Deixou um resto de café na chávena, ele como sempre bebera-o até ao fim, desculpando assim o efeito estimulante numa ou outra palavra parva no discurso. Ela sorriu, dizendo que gostava de ouvir coisas parvas. Seguiram rua fora, ela de máquina em punho, ele de sorriso no rosto.

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