Uma noite para sempre gravada na memória da casa na Avenida Renato Araújo

Se voltar atrás no tempo, não sei o que me arrepia mais, se o dia em que me despedi (inconscientemente) do meu amigo e avô naquela sala da televisão em São João da Madeira no meu vigésimo quinto aniversário, se da forma como a vivi com ele e o meu pai. Decorria o ano de 2003, finais de maio. Na altura, a estrada para a casa dos meus avós não era tão rápida e cómoda como hoje, mas lembro-me que já jovem adulto seguia no banco de trás, janela aberta e um cachecol do Futebol Clube do Porto. Não me lembro a que horas chegámos, mas sei que foi dos dias de maior calor, vestia calções e sentei-me no sofá grande. A RTP estava em festa, a cidade do Porto num misto de festa e ansiedade, o país – algumas pessoas em Lisboa vestiam as cores da invicta e outros, bem, outros rezavam para que o Celtic levasse a taça.


O jogo, aqui tão perto, em Sevilha parecia estar muito longe dos nossos melhores sonhos, antes de a bola começar a rolar. Nunca pensei poder assistir a uma final tão importante com dois pilares e amigos, o meu avô materno e o meu pai. Mas o Futebol Clube do Porto deu-me essa e, bem, outras grandes alegrias pela vida fora. Sentámo-nos na sala, as persianas fechadas com as janelas abertas, mas a avenida estava deserta, não se ouvia um carro, volta e meia passava alguém e buzinava duas vezes, sabendo que ali vivia um dragão. Um não, vários!


No banco, o eterno aprendiz de Robson, um outro grande da nossa praça, chegou ao Porto depois de um pé e meio na capital do império. Quando o árbitro apitou sabia que não teria muitas possibilidades de vibrar com uma final na companhia do meu avô, uns anos antes (dois, para ser mais preciso) pregou-nos um susto no dia de uma final da taça. No hospital, com um diagnóstico difícil a nível pulmonar dizia ao médico na Urgência do Hospital de Santos Silva:


- Senhor Doutor, não posso voltar amanhã? É que o Porto joga daqui a pouco.


Se não estou enganado, uma final da Taça frente ao Braga, vencemos! Dali a umas horas, estaria numa enfermaria, cama 12. Sorri-lhe ao entrar, um dia mais tarde dizendo:


- Avô, não te quiseram a titular! Mas ainda jogas este ano!


O tempo foi passando, e ele ainda me entregou uma guitarra nova, no meu dia de aniversário naquela enfermaria, no dia 30 de Setembro. A partir dessa data quis aproveitar ao máximo, e Sevilha foi só um de tantos momentos a dois, três, quatro, cinco. Não posso nunca esquecer a mãe, a avó, a tia Helena. Em Sevilha, o tempo quente e o ambiente vibrante passava para cá do ecrã, de São João da Madeira a Espinho, de Vila Nova de Gaia a Freixo de Espada a Cinta. Havia poucas oportunidades, nunca pensei que no ano seguinte garantiríamos mais uma Taça, a de Campeões Europeus. Um passe magistral do mágico Deco, um remate à FIFA de Alenitchev sem deixar a bola cair e Derley confirma o que Douglas evitou em alguns milésimos, festejando o primeiro tento. Sorríamos, vibrávamos, o mais difícil estava feito, o golo inaugural! Passámos os quinze minutos do intervalo a pensar nos melhores momentos do desafio, no calor que podia afetar os atletas, no segundo tempo. Por momentos, olhei para o meu pai, sentado no cadeirão ao lado do meu avô e sorri, porque os tinha ao meu lado para viver um momento histórico. Não me lembro da Final de Viena em 1987, mas o golo do Madjer continua a ser para mim um dos mais bonitos da história, tanto assim é que as palavras cantadas pelo Miguel Araújo ainda arrepiam. Para puxar pela memória do meu avô perguntava-lhe sobre jogadores, do António Sousa (também ele Campeão Europeu 87) que sempre o tratou por Sr. Milheiro na Tabacaria Glória na Praça Luís Ribeiro em São João da Madeira. 


Larson, o careca que todos os dragões ganharam um ódio empatou em duas ocasiões, mas como se diz que à terceira é de vez, foi! Foi, e nem José Mourinho aguentou a pressão, o calor e a emoção de um ser dragão e chorou, escondendo as lágrimas com as mãos. Eu, bem, não me lembro de ter chorado como uma criança, mas gritei e fiquei sem voz. Vim para a varanda já o sol se havia pousado no horizonte. Estava eufórico, feliz, muito! Não sei a que horas regressei da casa dos meus avós, mas o repto estava lançado: numa próxima estaríamos de volta. Não estive na Final da Champions mas assisti a uma final do Campeonato do Mundo frente ao Once Caldas com o meu avô, de pijama e roupão azul, na sala de estar em São João da Madeira. As palavras, tal como os sentimentos devem ser partilhadas, e se forem acompanhadas de lágrimas que sejam verdadeiras.


Hoje olho para as memórias, desfolho imagens nos álbuns de família e agradeço por várias sortes: uma por ter tido oportunidades para sorrir e outras, por ser Dragão.

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