Um ano de ausência, caro Lúcio!
Acordei com necessidade de escrever. Faz hoje, um ano. Sabem aquela sensação de não querer atender uma chamada porque do outro lado vem uma má notícia!? Já vos aconteceu pensar no pior antes dele acontecer!? Estava sentado no sofá preto na cave da casa dos meus pais. Atendi, perguntei se havia novidades. De facto, haviam e não eram as melhores. Horas antes, vinte e quatro horas - talvez - falaríamos uma última vez. Pânico de hospitais, ausência de certezas, mais de uma dezena de dúvidas. O tanto que ficou por ensinar, eu, de aprender. Faz hoje um ano que a árvore plantada em nome da amizade quebrou um galho, daqueles que acreditamos como inquebráveis - ou duráveis no tempo.
Dali a umas horas, a despedida de um homem bom numa tarde que se vestiu de cinza numa rua íngreme na direção do rio que era a sua casa. Mas que é também a de muitos o que o admiravam. Nunca vi no Lúcio a ruindade de um chefe, a prepotência de um eu “superior” só por ter no apelido ou no rol de conhecidos fulano a ou b. Ao cair do pano, e com a estátua escrevi “o apontar da saudade”, depois de não ter conseguido armazenar águas em forma de lágrimas no rosto à mesa do jantar, depois ao telefone com um inegável amigo comum, e depois com amigos no café.
Já lá vão trezentos e sessenta e cinco dias, e tanto (ou se calhar nem tanto) mudou. Foi quem mais me ensinou sobre o que sei sobre estar e sobretudo ser à moda do norte. A lealdade (embora nem sempre praticada por outros), a sinceridade (idem), a civilidade (só ao alcance dos seres com coluna vertebral). Ouvi palavras de carinho que me confortaram, senti os abraços e apertos de mão com olhares de frente.
Do tempo que nos separa, sobram perguntas, oportunidades para cafés ao fim do dia ou de manhã, de livros que ficaram por comentar. Lembro-me da imagem aquando de um almoço de reconhecimento ao humanismo do Lúcio. A cada passo entre amigos, o sorriso terno e o saber ouvir, qualidade cada vez menos presente na profissão em particular. Houve quem lhe agradecesse pessoalmente, outros que derramaram lágrimas só porque sim. Eu, pessoalmente, encontrei a paz no idealizar do reencontro com o Bosko e a infinita saudade do irmão.
Sim. Também eu sinto a falta do irmão velho que não tive. Era a única pessoa que eu carinhosamente deixava que me tratasse por Chicão. O Lúcio tinha mais do que estudos para o merecer. Como sempre dizias ao telefone:
Um xi para ti!
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