O que vir - por acaso

Rua de Santa Catarina,
Uma loja com um título bastante nacional "Bem português", na montra uma mota americana e canecas "Thrill´s of Freedom". Afinal, em que ficamos?
Hoje está um dia típico do Porto. Cinzento, mas há turistas a calcorrear a calçada bem portuguesa. É perigosa! Escorregadia! Caminha-se devagar, um passo de cada vez, com o dedo pronto a disparar no telefone americano e de tempos a tempos contam-se os passos dados desde o início da jornada: o descer para o pequeno-almoço, as viagens ao buffet, o primeiro café ao balcão.
Um polícia guarda a Ouriversaria Marcolino Ribeiro, e de esguelha vê quem entra ou sai do Majestic. Continuo a caminhada e os passos levam-me, de novo ao mercado do Bolhão, nunca cá tinha entrado desde 1982, e em pouco tempo guardo memórias e cliques, ah! E frases que partilho por aqui. O Porto está repleto de estrangeiros, entretanto estremeço ao passar na esquina com a rua da Alegria. No primeiro piso ficava o consultório do Acácio.
Um tempo chuvoso... ao longo das varandas panorâmicas o aviso em amarelo "Caution! Wet floor". Um rapaz magro viaja por melodias que reconheço de outras paragens, ao lado, a sua companheira ouve, em silêncio e com um sorriso. Vai bebicando o café e ajeitando o cabelo castanho comprido. Deixo-me ficar, apesar do vento frio de Janeiro.
As mãos arrefecem, entre o braço e o tronco as crónicas do Lobo Antunes. Pouso o livro, como quem pousa uma obra completa de Bach. Sou eu, e o piano. Durante uns largos minutos. O segurança chegou ao pé de mim, falando-me em inglês a pedir muita desculpa, mas teriam de tapar o piano negro, estava a apanhar chuva. Não deve ter reparado no livro no apoio das pautas. Bem português...
Percorri os metros que me faltavam até ao carro na Praça D. João I, e arranco, até à loja de música nas imediações do hospital militar. Erro! Apaixonei-me por uma guitarra em específico, azul porto, tira fina branca e castanho. Botões e carrilhões em tons dourados. Acho que perdi a cabeça...
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