A vontade, independentemente de tudo à volta estar caótico, regressou


Decidi tornar a ancorar no cais das palavras. Eventualmente com vontade de percorrer o dicionário das expressões idiomáticas ao latim mais reconhecido nos bancos do parlamento, prometi a mim mesmo duas coisas até ao final do verão: conhecer novas pessoas, voltar a pegar na viola e gravar o álbum que começou em 2008. No outro dia, encontrei por acaso o DVD. Deixei a empregada sair e coloquei na televisão grande da sala da casa dos meus pais. Sistema 5.1, colunas distribuídas, e memórias que nunca mais acabavam. Fazia sol, no vídeo dos ensaios o violão que me foi entregue no meu décimo oitavo aniversário pelo meu avô na cama doze do serviço de pneumologia do Hospital de Vila Nova de Gaia / Espinho, onde, de resto, está igual ao que era. Um pólo cor de laranja de um torneio de golfe que ainda me assenta na perfeição, calças de ganga que ainda estão no meu armário, apenas os óculos e a lombar fazem parte do passado. A voz doce da Tânia, a jovialidade do David, as canções feitas entre uma noite de Maio no cais de Gaia e as muitas noites à volta de um sofá e histórias que fui acumulando. Ao ver aquele ensaio num ginásio de vila do conde, fiz uma espécie de viagem. E sabem que mais!? Teria vivido tudo praticamente igual, mas com mais intensidade e verdade. Voltaria a encontrar aquelas pessoas nas mesmas circunstâncias, souberam bem os abraços e as noites de asfalto entre Espinho e o Porto, entre o Porto e Oliveira de Azeméis. O Facebook foi acumulando episódios, e revê-los é entender que a mágoa é uma coisa que pode surgir em qualquer idade, a paixão não se explica nem se pode exigir que a outra pessoa tenha o mesmo sentimento por nós. É bom sentir saudades de uma cidade, é bom ter ainda nas gavetas cartas escritas e entregues em mão com espécies de balanços e "não me esperes para jantar...". É bom ouvir canções e sentir o mesmo efeito na espinha. Hoje, está calor. Era capaz de me deixar ficar sentado naquele cais, por muito que os pés não tocassem a água, por muito que soubesse que não voltarias para me fazer companhia ao jantar. 

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