O voo melancólico da manhã
Conjugar suplementos num centro comercial às portas de um hospital. O Campus, quem está sentado numa cadeira a imitar a palha da praia e aguarda uma chamada a dizer "já estamos prontas, podes vir" parece um shopping normal, daqueles com vista para o rio ou a sempre caótica aep.
O carro estacionado no parque através da via verde, uma voltinha rápida para encontrar um lugar ao pé das escadas. Sei de cor as lojas, a sua localização e os restaurantes para enganar a fome e esconder os receios de uma consulta no SNS.
A menina do Café Arcádia sorri, dá os bons dias e prepara o meu pedido com mais cuidado e atenção que uma pessoa da repartição das finanças. Sento-me com vista para um placard de publicidade a imitar madeira e pvc com tudo o que faz mal mas sabe terrivelmente bem: quindão, tarte de limão, bolo mousse, tarte de amêndoa e bolo de chocolate ao estilo do Dubai.
A poucos metros de mim, uma jovem moça de unhas pintadas da cor do Benfica, abre a garrafa de frize fresca e mergulha os lábios, carrega dois telemóveis, eventualmente dois números, eventualmente duas vidas.
Está bem vestida, calças de ganga, uma t-shirt cinzenta e o cabelo parece hidratado. No mupi grande no corredor uma modelo em biquíni da Calzedonia. Nunca vem o nome da jovem moça, do fotógrafo sortudo que permaneceu até ao pôr-do-sol com ela numa praia das Caraíbas ou com uma tela ao fundo num estúdio no centro da cidade.
Acompanha-me há umas semanas o primeiro livro de Carlos Tê, que se passa num Porto que tende a já só ser uma memória - anos 60 até à revolução - demorei uns anos para o encontrar, e estou quase a dar por terminada a sua leitura. Uma escrita que só está ao alcance dos grandes. Não costumo passar os olhos pela última página, mas com este não resisti. "... Tal como a utopia nos tinha ensinado. E utopia pareceu-me uma palavra justa para definir um sonho amplo num céu coberto pela cinza dos dias..."
Por aqui permaneço sentado, entre goles de café quente e água natural. Casais mergulhados nos ecrãs dos telefones, senhor de pele escura e turbante transporta mochila para ir buscar comida e deixar no gabinete de um advogado de família.
Uma filha fala alto com a mãe, de cabelo comprido apanhado em rabo de cavalo não conseguem esconder de onde vêem nem para onde vão.
Tantas almas e nenhuma delas me chamou tanto a atenção como a jovem moça que se sentou na mesa em frente com a frize a aquecer.
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