Crónica de uma estação

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Descobrir-te foi a melhor viagem dos destinos, todos os dias nos cruzávamos, entravas na tua estação, eu - sendo um pouco mais pobre - no apeadeiro. Éramos da mesma idade, gostávamos das mesmas coisas, lemos livros iguais ao mesmo tempo e a cada dia que nos reencontrávamos (ainda com alguma remela e sono) perguntava-te em que capítulo ias.

Praticamente caminhávamos à mesma velocidade pelas palavras, emocionavas-te falar da personagem que perdeu tudo por uma história de amor. Eu concordava que fora um passo heróico e belo. Também eu faria isso por ti - dizia-te sem reservas, abraçando-te para senitr o teu perfume.

Saía da escola dois minutos antes do toque, na entrada da estação comprava dois cafés em copos de plástico e pedia aos deuses "da estação" que o comboio que nos levaria de volta a casa se atrasasse. Enquanto fosse possível (e na melhor das previsões) libertar-te-ia dos meus braços já noite dentro. Perguntei-te se querias um dia jantar, ir ao cinema. Estreou um filme sobre o Porto que achava ter tudo a ver connosco.

Aceitaste o convite, ao longo das semanas seguintes perdemos o comboio de propósito e perdemos as horas por becos, ruelas e canções. Foi a melhor coisa que podia ter acontecido: estudar longe da minha cidade e reservar as horas para uma viagem de comboio!

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