Memórias de um caderno da Medieval (cont.)
15 de Agosto de 1988 - estava cinzento. Uma ida à Igreja Matriz à missa das onze, saudoso Padre Manuel, o pessoal estava numa de ir à praia, eu, ao café para ver o meu avô e eventualmente comer um croissant com recheio de maçã ou chila da Gininha. Uma ida aos cromos foi o suficiente para deitar por terra os sonhos de uma carreira no futebol: tíbia e perónio. Os detalhes do acidente vou-me abster de vos contar, mas passei um verão diferente, com gesso, um ferro e quatro parafusos. Cresci entretanto, quando olho para trás não tenho grandes memórias de como me conseguia virar na cama com gesso até ao fémur.
18h30 - escolho uma mesa afastada da esplanada. Um sol bonito aquece o centro. O café chega quente, deixo o valor certo à jovem moça que me recebe à moda antiga, com educação, simpatia e sem pressa. Os emigrantes já estão de volta e continuam a falar francês para parecerem finos, mas ao jantar, à mesa com o jogo na tv dizem em bom pronúncio nortenho - impropérios que fariam sorrir o Bocage. Preciso de uns auscultadores com cancelamento de ruído para não ser incomodado pelas playlists repletas de lixo da mesa do canto. Daqui a pouco chamo a PSP, a ASAE e o Correio da Manhã. Só de pensar na azeitice que abunda nas rádios e colunas portáteis de jovens com cara de quem sobrevive nos principais subúrbios da cidade. O café devia durar mais e ser mais bem frequentado. Recordo o que dizia o Prof. Machado Vaz "o ruído que menos me incomoda é a música". A mim é mais a "não música..." que encontra na nova geração o seu ganha-pão. Um dia destes trago a minha playlist de Mozart, Green Day, Nirvana, passo depois por Neil Young, Leonard Cohen e Procol Harum.
Vem-me à memória quem partilhou comigo muita da sua sabedoria musical, o António - que já terminou a sua passagem na terra. Corre uma aragem, respiro fundo, olho o barco na fonte junto à câmara, uma bandeira da cidade dança ao ritmo do vento. Tem tons azuis e uma inscrição "Vamos andando". É assim que hoje me sinto, mas bem melhor que há trinta e quatro anos atrás.
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