Conhecer uma alma desconhecida numa livraria...

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Não deve haver história de amor mais bonita que o título da presente crónica. Conhecer alguém, sem estarmos minimamente apresentáveis, numa fila para pagar mais um livro, um café bebido à pressa num lugar, em que alguém se lembrou de colocar o néctar que vem de solos difíceis de outras paragens, a poucos cêntimos, numa carteira já ela leve por ter escolhido uma paixão tão cara quanto as letras. Não deve haver mais nenhum erro bonito, sorrirmos entre capas, corredores repletos de histórias de outros, perguntar o nome, ou o que estás a ler quando não vens à livraria. Escrever horas a fio numa esplanada qualquer, o ruído dos outros ao fundo, o senhor do café da biblioteca que já te conhece os vícios, deposita-te uma chávena aquecida sem abrires a boca ou tirares os olhos do caderno pequeno. 

Mergulho nas palavras do João Tordo. O segundo livro dele a estar na minha biblioteca pessoal, depois de "Manual de sobrevivência de um escritor". Pela segunda vez, em longos meses de permanência na plataforma Vinted, comprei um livro em segunda mão. De seu nome, Inês. Parece-me ser alguém de trato civilizado. Lábios bem tratados, quiçá, um sorriso tímido enquanto escolhe livros na Bertrand de Lisboa. Imagino-a a ler, "Inventário da solidão" Quase a sussurrar a passagem mais bonita de um livro próprio, que insiste em escrever, escondida naquele café do bairro, de auscultadores nos ouvidos, mas que teima em não fazer chegar a ninguém. À memória vem a música "Sofia, por ela própria" de Miguel Araújo. Um gato, colecionava cupões mas mantinha-os guardados - não lhe fosse sair. 

O primeiro livro que comprei, chegou-me da Alemanha "ABC do Charuto" em português. Às vezes pergunto-me, quando estou em frente a uma livraria deserta, que conversas haverão entre os livros. Será que as personagens ganham vida e descrevem entre si olhares indiscretos entre livrólicos anónimos? Não deve haver nada mais bonito. Lavar os dentes à pressa, passar o desodorizante, escovar o pouco cabelo que resta, dizer "vou beber um café", e só regressar horas mais tarde com um jantar agradável, um livro novo, e a camisola (mal escolhida) cheirar a um abraço bonito. 

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