Um banco de segredos

Acho que a última vez que vim ao Porto, foi para fotografar um candidato, que venceu. Recordo-me da cabeça a mil, depois de uma conversa em vídeo por uma reportagem dali a umas semanas numa capital europeia. Acho até que foi naquele dia em que me apetecia ter o telemóvel avariado, um charuto no bolso, assim como o cortador e o isqueiro de chama azul, sentar-me numa esplanada de caderno e caneta e ver onde a imaginação ou a inspiração me levasse. Foi também numa altura em que decidi mandar às malvas pessoas que nada mais me diziam do que verborreias. Só queria que alguém me dissesse que eu estava certo, que fizesse apenas o que me desse gozo. Apaixonei-me pela fotografia muito depois das palavras, essas, acho que cresceram na meninice e a aversão a números.
Tinha a minha câmara na mochila, mas não o charuto. Tinha a vontade de parecer ser mais um turista. Óculos escuros, boné na cabeça, deixei o carro numa das íngremes ruas perpendiculares ao oceano. 

Ainda não tinha dado muitos passos e já tinha conseguido sorrir a uma turista de cabelo comprido e loiro. Sentara-se com a melhor amiga no banco que tem tudo para ser um divã de psicoterapia. O Atlântico beijava as rochas na praia do homem do leme de forma pausada, como se também ele não tivesse pressa da chegada da lua.

Há dias em que me apetece ser estrangeiro na cidade que me preenche os vazios. Há dias em que não me importava de ter a minha melhor amiga por perto e nos sentarmos sem pressa naquele banco. Às vezes, vou ao Porto. E penso no quão bom foi tê-la conhecido, e com ela calcorrear aquelas ruas. 

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